Crescimento acelerado: quando a empolgação vira risco

Mar 14, 2026

Lucas Martinez

Em agosto de 2025 eu cruzei a linha de chegada da meia maratona de Vitória.

Foram 21 quilômetros de corrida, mais de 7 mil pessoas na largada e a primeira prova desse porte na minha vida.

No final do trajeto, quando coloquei a medalha no pescoço, comemorei junto com minha esposa naquele misto de orgulho e alívio que só quem já superou algo difícil conhece. Foi um dos momentos mais emocionantes que vivi nos últimos anos.

Mas nem tudo são flores. Mais ou menos 12 horas depois, estava eu internado na UTI.


O contexto antes da prova

Mais de um ano antes dessa corrida, eu mal conseguia completar 7km sem chegar ao limite, completamente exausto. Foram meses de treino, dias intensos, testando a resistência do meu corpo mesmo quando ele pedia para parar.

Quando chegou o dia da meia maratona, eu me senti pronto. E de fato estava. Minha treinadora tinha dado o sinal verde. Os treinos tinham fluído bem. A preparação estava completa.

O grande problema foi a empolgação.


O que a adrenalina esconde

A adrenalina da prova é difícil de descrever para quem nunca viveu. O barulho, a multidão, o clima coletivo de superação. Entrei naquela vibração e corri num ritmo que, naquele momento, parecia completamente dentro do meu limite.

Só que não estava.

A dor no peito que apareceu horas depois me levou ao hospital. Os médicos encontraram a troponina alta no exame de sangue. Esse complexo de proteínas só aparece quando há alguma lesão no músculo cardíaco. A preocupação foi imediata. A internação também.

Passei da maior vitória pessoal dos últimos tempos para um dos momentos de maior preocupação da minha vida em questão de horas.

Depois de uma bateria de exames e meses de acompanhamento, o diagnóstico final foi o melhor possível: tinha sido esforço acima da conta. Um susto sério, mas sem sequelas.

Fiquei bem, graças a Deus. Mas a lição ficou.


O paralelo com empresas

Existe uma conexão direta entre o que aconteceu comigo naquela prova e o que vejo acontecer com empresas o tempo todo.

O empresário aprende, aplica e constrói. E num momento de empolgação, seja um lançamento, uma data comemorativa, uma oportunidade de crescimento rápido, ele acelera além do que a estrutura da empresa suporta.

Na maioria das vezes não é por incompetência. Acontece pela mesma razão que eu corri além do meu limite: porque no calor do momento, parecia que estava tudo dentro do controle.

O faturamento dispara. Os pedidos multiplicam. A equipe corre para dar conta. Parece vitória. Parece que finalmente chegou o momento de escalar.

Só que a estrutura não acompanha. O atendimento falha. A logística atrasa. A qualidade cai. O cliente que chegou empolgado sai frustrado. E o que parecia crescimento vira crise.


A armadilha da empolgação

A empolgação é uma força poderosa. Ela te coloca em movimento. Te faz atravessar barreiras que o medo travaria. Sem ela, muitos negócios nem sairiam do papel.

Mas quando ela substitui o senso de limite, o preço aparece depois.

O problema é que no momento da empolgação, você não sente que está passando do limite. Tudo parece possível. Tudo parece controlável. A adrenalina mascara os sinais de alerta.

No meu caso, o corpo estava dando sinais. Eu não estava ouvindo. A emoção da prova, a multidão ao redor, a proximidade da linha de chegada. Tudo isso abafou o que o corpo estava tentando dizer.

Em empresas funciona igual. Os sinais aparecem. Equipe sobrecarregada. Processos improvisados. Margem apertando. Cliente reclamando mais. Mas a empolgação do crescimento abafa tudo. Parece que é só aguentar mais um pouco. Parece que depois a gente organiza.

Só que às vezes o depois não vem.


O preço do atalho

Crescer rápido demais sem estrutura não é crescimento. É dívida.

Dívida de qualidade que você vai pagar em reputação. Dívida de processo que você vai pagar em retrabalho. Dívida de posicionamento que você vai pagar em confusão de marca.

A diferença entre crescimento sustentável e crescimento que quebra está na fundação. Se a base aguenta, você escala. Se a base não aguenta, você desmorona.

E a empolgação não deixa você ver a base. Ela só mostra o topo.


A segunda lição: não existe atalho

O segundo paralelo é mais simples, mas igualmente verdadeiro.

Não existe caminho curto. Não existe mágica.

Eu só cruzei aquela linha de chegada porque treinei por mais de um ano. Toda semana, sem falhar. Cada corrida ruim, cada treino pesado, cada dia em que o corpo não queria. Tudo isso fez parte do resultado.

Se eu tivesse tentado correr a meia maratona seis meses antes, sem o treino adequado, o resultado seria pior. Talvez nem tivesse chegado ao fim. Talvez o problema cardíaco tivesse sido mais grave.

O treino me preparou para aguentar. Mesmo tendo passado do limite, a base construída ao longo de um ano segurou o impacto.


Marca funciona igual

Posicionamento não aparece do dia para a noite. Consistência não é glamourosa. Mas é o único treino que funciona.

Cada conteúdo publicado, cada cliente bem atendido, cada decisão alinhada com a estratégia. Isso é treino. Isso é fundação. Isso é o que permite crescer quando a oportunidade aparece.

Empresas que tentam pular essa etapa pagam o preço. Ou não conseguem sustentar o crescimento. Ou crescem de um jeito que destrói o que tinham construído.

A empolgação quer acelerar. A estratégia sabe que existe um ritmo certo. E o ritmo certo é aquele que sua estrutura aguenta.


O equilíbrio entre ambição e limite

Não estou dizendo para não ser ambicioso. Ambição move. Ambição constrói. Sem ambição, você fica parado.

Estou dizendo para conhecer seus limites. Para ter consciência de onde está sua estrutura real, não a estrutura que você imagina ter.

Minha treinadora me preparou bem. Os treinos estavam corretos. O erro foi meu, no dia da prova, ao ignorar o que o corpo estava dizendo. A empolgação falou mais alto.

Em empresas, o erro geralmente é o mesmo. A estratégia existe. O plano existe. Mas na hora H, a empolgação assume. E o limite é ultrapassado.


A vitória que vale

A medalha no meu pescoço valeu. O momento de cruzar a linha de chegada valeu. Mas só valeu porque eu estava vivo para comemorar.

Se eu tivesse forçado ainda mais, se o susto tivesse sido pior, a medalha seria só um pedaço de metal. O preço teria sido alto demais.

O mesmo vale para crescimento de empresa. Faturamento recorde não vale se destruiu a equipe. Lançamento de sucesso não vale se comprometeu a reputação. Crescimento rápido não vale se não se sustenta.

A vitória que vale é aquela que você consegue repetir. Que você consegue manter. Que constrói base para a próxima.


A lição que ficou

Se a gente entender que não existe atalho, que consistência é treino, que estrutura precede escala, a vitória e a medalha no final vão ser reais.

Só não deixe a empolgação te mandar pra UTI antes de chegar lá.

Crescer é bom. Crescer rápido pode ser bom. Mas crescer além do que sua estrutura aguenta é risco. E risco, quando se materializa, cobra caro.

Conheça seu limite. Respeite seu ritmo. Construa sua base. A medalha vem. E quando vier, você vai estar inteiro para aproveitar.

Todos os direitos reservados à Martinez Branding

CNPJ: 27.094.242/0001-48

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